
Entrevista com a bióloga Jeane Santos de Jesus


Por Liliana e Nicole
Qual a sua formação ?
Bom, eu sou bióloga. Eu sou licenciada pelo Salesiano, já sou formada desde 2015 e atualmente eu trabalho como educadora ambiental no projeto Baleia Jubarte que fica na Praça do Papa e tenho uma empresa de educação e divulgação científica.
Onde você cursou o ensino básico ?
Meu ensino básico foi em escola pública, tanto aqui no Espírito Santo quanto em São Paulo. Já na faculdade eu cursei particular, eu ganhei uma bolsa de 100% pelo Nossa Bolsa que é um programa do governo do estado. Eu tentei entrar em uma universidade federal só que a gente que é de periferia e de escola pública, ou a gente trabalha ou a gente estuda ou a gente dorme, então eu tava tentando fazer os três para passar em uma federal mas realmente eu não dei conta, foi muito complicado principalmente pra mim, eu sei que teve gente que conseguiu mas eu não consegui.
Eu acabei fazendo licenciatura porque era de noite e eu precisava trabalhar para cobrir minhas despesas. Apesar de eu ser licenciada eu não atuo em escola, eu atuo em espaços não formais, com palestras em praças e na praia, enfim, locais não habituais de escolas, mas se tiver alguma escola me chame eu também vou, mas não dou aula como um professor normal.
Como é vir de periferia e ter que fazer uma jornada tripla para conseguir estudar e trabalhar ?
Eu falo que eu sou meio fora do padrão, porque apesar de tudo eu tenho buscado as coisas. Antes de entrar na faculdade, quando eu tava saindo do ensino médio eu ouvi de familiares, pessoas que eu esperava que me apoiassem, que eu estava inventando moda de fazer faculdade e que eu era pobre e preta então eu não devia fazer faculdade porque faculdade era coisa de gente rica e pobre e preto tinha que saber o lugar dele que é trabalhar pra colocar comida dentro de casa. Isso me feriu muito no início. A minha jornada e de muitas pessoas é em cima de muito preconceito, de muita crença limitante, “você não vai ser nada na vida” esse tipo de coisa que muitos de nós ouvimos.
Apesar de tudo isso, de ser de periferia, de ser uma mulher negra, de ser pobre e ter poucas condições, eu fui investindo em mim, buscando e tendo esperança. Com a oportunidade da bolsa eu pude fazer faculdade, mas não foi fácil. A cada semestre eu chorava e queria largar tudo. Eu tive pessoas muito legais e muito importantes que me ajudaram, mas eu costumo falar que pode estar Deus e o mundo te incentivando, mas se você não levanta e dá o primeiro passo, não tem reza no mundo que vai fazer você conseguir nada. Eu agradeço todo mundo que me ajudou e agradeço a mim por ter conseguido me fortalecer e ter me levantado. Não é fácil pra gente, são muitos obstáculos, não ter condições financeiras, morar na periferia já tem muitos obstáculos, aí chega na parte de ser negra e ser mulher aí a gente tem muito mais obstáculos.
Esse é um pouquinho da minha história, assim, bem resumida, existem muitos obstáculos porque todo dia a gente tem que mostrar que somos capazes e que a cor da nossa pele não mostra inteligência, competência, não mostra nada e é muito triste isso, sabe ? É muito triste a gente ter que estar provando que a nossa inteligência não tem nada a ver com a cor da pele, mas enquanto isso existir a gente continua lutando.
Realmente é muito difícil você ter que mostrar muitas vezes mais do que você é capaz em comparação com o seu colega que tá fazendo menos só por causa da cor da sua pele e de onde você veio. Fico feliz que você seja esse ponto de referência para outras pessoas, Jeane, que consigam ver e falar “se ela conseguiu eu vou conseguir também” Isso é muito importante. Tem alguma mensagem que você queira deixar para os estudantes ?
Eu deixo o recado de que tudo que a gente quer conquistar na vida não é fácil. A gente tem que lutar, tem que conquistar com respeito e honestidade, sem passar por cima de ninguém, sem dar rasteira em ninguém, a gente tem que ter o nosso mérito e conquistar mesmo. Nessa parte de racismo e preconceito, sempre vai existir e a gente tem que continuar lutando para tentar diminuir, e isso só vai ser possível quando a gente conseguir se colocar no lugar do outro, ter empatia e ver que não tem nada ver a cor da pele, ser mulher, ser homem, ser alto, baixo, cada um tem suas competências e pontos positivos e muita coisa a gente pode aprender e não importa se falarem que você não pode ser isso ou aquilo, se você quer, se ta no seu coração você vai buscar.
Isso de eu quero ser como ela, de uns anos pra cá que começou a ter referências de pessoas negras na televisão e na mídia, e não só como empregada doméstica, não só como empregada, não é mais doméstica, existem palavras racistas que a gente tem que tentar tirar do vocabulário, então, assim, sem menosprezar esses serviços, mas a gente pode ser o que a gente quiser, podemos ser engenheiros, biólogos, médicos, presidentes, presidentas, então, é um caminho árduo e a gente tem que quebrar e mostrar pras outras pessoas a partir do conhecimento e do estudo. Então não importa o que o outro falou, se você quer seja a doidinha, seja o doidinho e vá, se quiser usar cabelo black, use, se quer usar alisado, use, se quiser usar trança, use, mas é importante que a gente saiba da história, de onde vem essas ideias.
O meu recado é esse, se você quer busque e vá atrás. Às vezes você vai ter que trabalhar mais 3 ou 4 anos que a pessoa, mas vai lá e faz você fazendo.
Sempre que eu falo que sou mulher preta, pobre e de periferia eu complemento que eu não quero que ninguém tenha pena de mim, eu quero que tenha orgulho por que apenas de tudo eu to indo e tô batalhando todo dia para conquistar as coisas que eu quero, então não é pra ter pena. Quando a gente conta a nossa história não é pra ter pena, é pra ter orgulho e falar caraca, apesar de toda dificuldade ela foi lá e tem conseguido mesmo que aos pouquinhos .
Neste momento aproveitamos para lembrar o trecho de uma música do BAco Exu do Blues, chamada Kanye West da Bahia onde ele canta:
“Não me chame de preto bonito
Preto inteligente
Preto educado
Só de pessoa importante” .
Onde ressalta que antes da nossa cor ou de onde vinhemos somos pessoas e merecemos reconhecimento como tal.

Como está sendo a sua atuação na biologia mesmo com todos os estereótipos ?
A maioria das pessoas fala que eu sou muito eufórica, eu sou muito elétrica, sou muito alegre, eu sou tagarela e falo muito e eu amo muito o que eu faço me entrego mesmo. Desde que eu entrei na graduação em 2011 eu comecei afazer trabalho voluntário no IPRAM (Centro de Reabilitação de Animais Marinhos do Espírito Santo) instituição que cuida da reabilitação de pinguins, e dali eu não parei mais, só que eu sou uma pessoa que adora ajudar então eu estava no EPRAM, eu estava no instituto do jacaré nema, estava nos últimos refúgios, estava em todos ao mesmo tempo. Até que no fim foi encurtando pois tem uma hora que agente tem que seguir uma linha, então eu tenho buscado muito ser referência na área como mulher negra, biologia negra.
Às vezes eu falo “Sou bióloga" não por ego, mas para mostrar que eu posso ser. Porque é muito chato eu chegar em um lugar e perguntarem "Você trabalha aqui ?” "Você é a faxineira ?”. Sem desprezar os empregos mais simples mas nós podemos ser o que nós quisermos e às vezes as pessoas estereotipam e quando a gente tá em um cargo maior elas não acreditam ou acham que estamos mentindo. Então, desde 2011 eu tenho tentado ser referência na área, tenho buscado. Hoje eu tô atuando só no Projeto Baleia Jubarte e na Novos Mares que é a minha empresa de educação ambiental, que dá palestras e cursos, eu tentei dar uma esticada mas hoje estou nessas duas vertentes, o projeto e a empresa.
Como foi a sua época na faculdade ? Você já trabalhava ou era parte de algum projeto ?
Como eu estudava a noite para poder trabalhar de dia eu não consegui fazer muitas coisas, até que no fim eu saí da farmácia onde eu trabalhava e fui em busca de fazer voluntariado e estágio. Eu consegui um estágio na Escola da Ciência - Biologia e História por dois anos, lá eu recebia uma bolsa pela prefeitura de Vitória e conseguia me manter, mas o meu salário caiu cerca de 50%, então muita coisa eu deixei de fazer e de comprar, aula de campo e essas outras coisas eu comecei a vender bombom e sanduíche na faculdade pra poder completar a renda e poder pagar. Eu tentei fazer iniciação cientifica mas eu não consegui por causa do horário, era a tarde e eu tava no estágio nesse horário e de manhã eu fazia o estágio obrigatório na escola então eu não pude fazer iniciação cientifica mas eu fiz bastante trabalho voluntário, por exemplo no IPRAM, no final de semana em jacarenema eu fazia limpeza de praia, eu saia aqui da Serra e ia lá pra Praia da Costa para fazer limpeza de praia e aproveitava para fazer contato também, mostrar o meu trabalho.
Eu tenho tentado dar palestras e participar de algumas coisas pra me mostrar profissionalmente e mostrar pras pessoas que a gente pode estar ali, uma mulher pode estar ali, uma negra pode estar ali, sabe ? Não é só a questão da cor, uma pessoa que estudou e que pode contribuir, muito além da cor da pele e do gênero.
De onde veio esse amor pra você conseguir continuar trabalhando e realizando seus projetos mesmo com tanto perrengue ?
É muito perrengue muita vontade de largar tudo, porque por ser ser humano a gente quer ter pressa nas coisas, e isso vem com o tempo. Hoje eu estou com 36 anos, a gente vai entendendo que nada é com rapidez. Eu sempre tentei participar de eventos e de limpeza de praia para fazer contatos, Networking é o nome em inglês e isso foi uma coisa que eu decidi que eu ia fazer pras pessoas saberem quem eu sou e apesar de todo o perrengue eu tive algumas pessoas que foram essenciais na minha vida.
Tive bastante amigos que me ajudaram a me fortalecer, eu tive uma professora na graduação que quando eu tava pra largar a graduação no quinto período, eu tinha deixado muitas provas pra fazer no final e eu não dei conta, isso era 2012, e eu fui conversar com essa professora e falei que eu ia trancar a faculdade por um período pra eu ter dinheiro e voltar e aí ela falou “Mas faltam dois semestres para você terminar a graduação, você não consegue segurar mais um pouquinho ?” E aí eu pensei e percebi que faltava um ano pra eu finalizar a graduação e que não valia a pena eu largar.
Qual foi a sua atuação na área ambiental? Quais projetos você já fez nessa área ?
Não sou licenciada mas sempre fiz coisas “no bacharel”, mais pra área de campo. Trabalhei no IMPRAM como reabilitadora de animais marinhos, fui voluntária, estagiária e depois funcionária, trabalhei e fiz voluntário no Jacarenema, em questão de limpeza de praia, no projeto amigos da jubarte fiquei dois anos na área de pesquisa da baleia jubarte e na parte da educação ambiental, nos últimos refúgios eu fiquei uns 2 anos também de voluntária, na parte de divulgação científica e dando palestras de educação ambiental.
A Novos Mares iria em um primeiro momento ser como um projeto de limpeza de praia mas com uma conversa com uma amiga surgiu a ideia de criar uma empresa e fazer palestras, continuo aprendendo até hoje. Portanto é isso, estou no Projeto Baleia Jubarte há 3 anos, como educadora ambiental e quando está em época de reprodução eu atuo na área de pesquisa.
Porque você escolheu fazer faculdade de biologia ?
Já quis ser bastante coisa, gostava bastante de documentários de natureza e daí foi surgindo essa paixão, daí fui surgindo também essa paixão pelo mar no ensino médio. Sempre gostei da natureza, daqui de casa mesmo, de estar em contato, gostava a bastante de filmes e isso tudo formou a Jeane Bióloga Marinha.